PÚBLICO feature on 1st anniversary of our Parties

Daily newspaper Público ran a full page feature coinciding with the first anniversary of our monthly parties at Musicbox. The scan is a bit lo-fi and sort of clipped so we reproduce the whole text below. However, click the image if you prefer to read the feature in context. Portuguese language only.

PUBLICO 9 FEV 2013

NOITE PRÍNCIPE EM LISBOA: QUANDO O SUOR DERRUBA TODAS AS BARREIRAS

Durante a semana, nos bairros que circundam Lisboa, no quarto, fazem música frenética, para ao fim-de-semana ser dançada no MusicBox. Hoje há festa.
Deixe o casaco no bengaleiro, passe com firmeza a porta intermédia e procure de imediato a pista de dança, onde encontrará uma massa de corpos vibrantes e gritos de júbilo que, pelas duas da manhã, estará ao rubro, vai uma aposta?
São uma aposta ganha, as noites Príncipe, da editora e promotora do mesmo nome, que se realizam há um ano no MusicBox, em Lisboa. Hoje, a partir da 1h da noite, é dia de aniversário e a extravagância será maior. Razão para a agitação? Essa forma arcaica de criar comunidade chamada música, mas não através de um som qualquer, uma sonoridade ritmada, serpenteante e vertiginosa, que tanto pode ser kuduro, como batida ou funaná.

Música maioritariamente criada nos bairros que circundam Lisboa por jovens DJ e produtores e que tem essa capacidade de transformar em sauna os corpos mais petrificados. Dir-se-á que depois da aceitação, nos últimos anos, de projectos como os Buraka Som Sistema ou Batida, estas noites já não constituem propriamente novidade. Errado. Continua quase tudo por fazer.
“Hoje vamos ter toda a gente que esteve connosco no último ano”, revela Pedro Gomes, da editora Príncipe e conhecido agitador da realidade musical portuguesa através da produtora Filho Único. “Vamos ter DJ Marfox e DJ Nervoso e dois colectivos ligados à música afro-portuguesa: a Casa da Mãe Produções (Firmeza, Maboku, Liofox) e os Blacksea Não Maya (Kolt, Love, DJ Joker). Para além deles, haverá também um colectivo de dança, os Pupilos do Kuduro, os Niagara e mais algumas surpresas.”

Pedro Gomes diz que são noites para dançar música daqui e agora noite adentro esquecendo o mundo lá fora. Mas esse pressuposto não esconde nenhum propósito alienante. Pelo contrário. O que acontece lá dentro tem uma carga mais política e de intervenção social do que muitos comícios. Independentemente da idade, da cor da pele, do dinheiro na carteira e da roupa, todos dançam.
Os DJ e os criadores da música são provenientes do bairro da Quinta do Mocho, perto de Sacavém, ou da zona do Seixal, e na pista de dança estão muitos amigos e cúmplices. Mas a celebração dá-se com o público habitual da Lisboa boémia do fim-de-semana.
“Foi a primeira vez que Lisboa viu uma noite assim, a viver música que não tinha lugar naqueles espaços. Pelo menos com aquela escala, com aquelas condições, e com aquela mescla social, racial, intercultural, que se foi criando ali, de uma maneira equilibrada.”

Foi há um ano que a Príncipe começou a operar, com dois vectores principais: a edição de discos e as noites mensais, com a intenção de dar a conhecer essa realidade urbana nova e excitante, feita de DJ e produtores que operam ao largo das lógicas tradicionais. “Tem sido um processo gradual de conhecimento mútuo”, reflecte Pedro Gomes. “Foi muito estranho para as pessoas dos bairros perceberem que no centro da cidade de Lisboa, num espaço badalado do Cais do Sodré, queriam ouvir música que nem no circuito da noite africana é usual ouvir.”
Ou seja, o impacto da acção da Príncipe acabou por contagiar também essa vaga de DJ e produtores, mesmo aqueles que já granjearam culto como Marfox. “A quarta noite que fizemos no MusicBox foi incrível a esse respeito”, lembra Pedro Gomes. “Foi muito impactante. De repente uma série de pessoas tomou consciência que alguma da melhor música de dança do mundo era feita cá e não fazia ideia. Foi uma ocasião de grande felicidade comunal. E recordo-me de, no final, o Maboku vir dizer-nos que, antes de aparecermos, estava prestes a desistir da música.”

Os dois primeiros lançamentos da Príncipe (EP de DJ Marfox e dos Photonz) já passaram à história. Agora vão seguir-se mais dois. Um deles pertence aos Niagara. E o outro agrupará produções dos colectivos Casa da Mãe e Blacksea. “Passámos horas infinitas a ouvir música criada por eles. Nunca imaginámos que fizessem tanta coisa e daí a dificuldade de seleccionar”, diz Pedro Gomes, que refere que a editora, e esta fornada de jovens produtores, está a desbravar um novo território de entendimento. Daí o desejo de não haver precipitações. “É preciso ter atenção ao que se faz, porquê e como se faz. Estamos aqui para criar bases sólidas que permitam às pessoas que estão connosco fazer o que desejam.”
Os dois primeiros lançamentos tiveram distribuição nos EUA, Japão e Europa, e o mesmo irá acontecer agora. Nos últimos meses Marfox ou os Niagara actuaram diversas vezes no exterior, sinal de que existem promotores europeus atentos ao que se passa aqui. Mais exactamente no Cais do Sodré, ao MusicBox.

Vítor Belanciano

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