DJ MARFOX interviewed for P3 / PÚBLICO

DJ Marfox entrevistado para o suplemento P3 do jornal Público, versão online, em antecipação da sua actuação no festival Optimus Alive. Cliquem na foto para ler em contexto.

DJ Marfox interviewed for P3 in advance of his performance at the Optimus Alive festival. Portuguese language only. Click pic to see / read in context.

DJ MARFOX salutes

DJ Marfox: do bairro para o Optimus Alive

A “máquina do kuduro” do DJ Marfox instala-se no Coreto do festival a 13 de Julho

Texto de Amanda Ribeiro • 12/07/2013 – 20:03

Para DJ Marfox, Marlon Silva, 25 anos, o kuduro “é vida”. É “alegria”, é dança. E tem um poder social, como contou ao telefone ao P3. Marfox, um dos mais recentes nomes da Enchufada, onde editou o EP “Subliminar” em Fevereiro, começou a produzir com 13, 14 anos. “Fui obrigado”, diz. Em 2006, deu que falar com o colectivo “DJs do Ghetto”, kuduro puro e duro, faixas que a Príncipe Discos reeditou este ano em formato digital. Com o EP “Eu Sei Quem Sou”, Marfox inaugurou a colecção da editora, que tem conseguido mudar a vida de muita gente — os que fazem música e os que a ouvem nas já míticas noites Príncipe no MusicBox, em Lisboa. Acompanhado por MC Osvaldo, Marfox passa pelo Coreto do Optimus Alive a 13 de Julho, pelas 2h30. Prometem-se “25 minutos de ginásio a sério”, de “máquina do kuduro”.

Como começaste a fazer música?
O meu pai sempre pôs música em casa. Era imigrante, de São Tomé e Príncipe, mas ouvíamos todo o tipo de música. Ele era um fã de rádio. As músicas passavam e ele ia comprar os álbuns. Daí começou a paixão pela música. Depois, conheci um primo que veio morar para perto. Ele passava música. Sempre que havia baptizados, casamentos, ele era o DJ da festa e, como a melhor aparelhagem do bairro [na Portela] era a do meu pai, ele levava-a. Eu ficava sempre ao lado dele a tentar perceber como se fazia. Entretanto com 13, 14 anos fui obrigado a ser produtor.

Foste obrigado?
Eu frequentava muitas discotecas de música africana e sentia-me um pouco solitário. Via que havia DJ de Angola que cá tinham renome. Pensava: “Será que quando tiver 18, 19 anos vou estar naquela cabine?” Eles faziam kuduro instrumental, faziam beats. Logo, havia uma vantagem enorme entre quem reproduzia e quem produzia. Comecei a fazer pesquisa, instalei o Fruity Loops, a minha primeira faixa demorou um dia. E não fiz nada. 24 horas sem dormir! Entretanto, fiquei muito amigo de um desses DJ que tocava em discotecas africanas [DJ Nervoso]. Os nossos bairros eram próximos. Eu tinha 14 ou 15 anos, era muito teimoso. Ia todos os dias a casa dele, ficava nas festas ao lado dele. Ele começou a deixar-me tocar. Eu abria a festa e assim fui-me tornando DJ. Como DJ, aproveitava as dicas dele e trabalhava em casa. Depois, comecei a criar a minha própria própria base também para não estar na sombra dele. Mais tarde, daí surgiu o colectivo DJs do Ghetto, com o DJ Nervoso, o N.k, que era mais produtor, os dois grandes da cena. O DJ Pausas e o DJ Fofuxo. Conseguimos todos. Éramos seis a fazer música. Isto foi em 2006. [A Príncipe reeditou em Fevereiro a primeira compilação]. Teve um boom muito grande no underground.

Tens saudades dos tempos do DJs do Ghetto?
Há pessoas que me vêem na rua e dizem: “Tu agora é só música electrónica!”. Não, eu simplesmente tirei a música que estava num espaço, nos bairros, onde se calhar não me pagavam para ver. Agora, tenho uma vivência em Lisboa, onde as pessoas pagam para ouvir a minha música. O pessoal ainda não percebeu o “power” que a música tem. Estava confinada a um espaço e agora está dilatada. É mentalidade pequena, mentalidade de bairro. Quando as coisas dão um passo em frente, as pessoas ficam com medo da mudança. As pessoas que já viajaram, já aceitam mais. A mensagem está a ser bem passada. Tipo: “O Marfox saiu do bairro para o Alive.” Se calhar, este é o caminho que muitos DJ deveriam seguir.

Que papel é que a Príncipe teve nessa transformação?
A Príncipe está a fazer esse trabalho. Há miúdos com 20, 22, que querem ir trabalhar, já não estão na idade da ilusão, querem ter filhos e família. Fazem uma música do caraças e como vêem que ninguém vai pagar por aquilo começam a pôr a criatividade de lado e assim se perde um tipo incrível. A Príncipe tem acompanhado esses artistas, tem sido o segundo pai e a segunda mãe. O que eu quero fazer é o que a Príncipe fez comigo. Msotras as pessoas. Todos os dias recebo pedidos no Soundcloud de músicos que querem ir a uma noite Príncipe. Eles aboliram com mitos: que o pessoal do bairro é isto ou aquilo.

Sentes-te um embaixador?
Não digo 100% embaixador, mas sinto-me bem em mostrar pessoas. Não tive essa oportunidade. Para mim foi muito complicado fazer essa passagem, foi lenta. A Príncipe ainda estava a nascer. Não digo que me sinto como embaixador, mas sinto-me como o gajo que equilibra as coisas. Digo aos djs putos: vocês um dia vão viajar, vão caminhar sozinhos. E é isso que me torna feliz. Tirar pessoas do bairro que se calhar estavam condenadas. Não sei se me sinto como um salvador, mas quero mostrar a música deles ao mundo. Há uma coisa que é incrível. A Príncipe trabalha com todos os artistas de bairros da linha de Sintra à margem sul, dos mais problemáticos ao menos. Nós estamos a trabalhar com bairros que eram inimigos. A música está a ligar as pessoas, pessoal que mal se falavam.

Já te chamaram líder de uma nova geração no seguimento de um caminho aberto pelos Buraka Som Sistema. Identificas-te com isso?
Eu comecei a fazer música ao mesmo tempo que os Buraka: o DJs do Ghetto é de 2006. Eu lancei-me para o underground, eles lançaram-se para o mainstream. Eu, na altura, não tinha contactos. Se calhar, hoje não existiria a Noite Príncipe porque os Buraka educaram as pessoas. Já não vêem o kuduro como música de pretos, do gueto. O kuduro tem uma mãe desvairada e os Buraka disseram que eram o pai. Tenho de dar esse valor. Eu faço beats de kuduro, eu tenho o meu estilo, eles têm o estilo deles. Eu não sou um rei, sou um artista normal que faz kuduro há muito tempo. Marfox já existe há muitos anos, não é de agora. O kuduro que eu faço é mais europeu, não uso vozes. Uso mais congas, rombas. Tem mais a ver com dança. Marfox vem daí, de criar algo que ninguém criou, de maneira que se possa dançar livremente. O meu kuduro não respeita um padrão de dança. O que fiz foi criar um kuduro que se pudesse dançar como se quisesse.

Suponho que pior coisa que te pode acontecer é as pessoas estarem paradas num concerto…
Acho que isso… é impossível (risos). Já me aconteceu as pessoas estarem tímidas. Uma vez, no Lx Factory, comecei a tocar e as pessoas estavam paradas. Cinco minutos, ok. Dez minutos, ok. Quinze, vá. Vinte já não é aceitável. Eu não estava a perceber o que se estava a passar e o meu set era de duas horas. De repente, a pista soltou-se! E foi até ao fim da noite. Depois, quando vinha para casa, o meu primo disse-me que o pessoal levou com um choque. As pessoas estavam a assimilar, estavam a absorver.

Vais actuar com o MC Osvaldo no Optimus Alive. Como vai ser a actuação?
Espero que as pessoas gostem. O MC Osvaldo tem um grupo, os Pupilos do Kuduro. Estiveram no aniversário da Príncipe, já fomos para festivais para fora juntos. Ele vai fazer animação e dança. As pessoas vão abaixo com aquilo. Vão passar 25 minutos de ginásio a sério, ver a máquina do kuduro. O importante é mostrar o meu trabalho e fazer a família crescer. É a primeira vez que vou ao Alive. Eu sair de um bairro e ir para o Alive. Tem esse papel social. Dizem-me: “Fogo, vais ao Optimus Alive!” Eu respondo: “Amanhã é a primeira vez, mas o objectivo é amanhã tu ires comigo ou estares lá tu.”

——————–

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: