ÍPSILON: A música doida de Normal Nada

NORMAL NADA_ipsilon

Texto Vitor Belanciano
Fotos Marta Pina

E quando se pensava que já não haveria grande espaço para surpresas eis um magnífico EP de sete temas de Normal Nada. Encontrámo-nos com ele há dias para tentarmos perceber quem seria a mente por trás daquela música salutarmente doida, influenciada por tanta coisa (tecno, house, África, sensualidade, energia, rave, ruído, loucura, fé, religião, álcool, bater com a cabeça na parede, construir em vez de destruir) mas totalmente impossível de cartografar.

Poesia. Mas não diáfana, etérea, mofa. Com vida em convulsão lá dentro, nervosa, intricada, revolta. Talvez seja isso. Normal Nada é um poeta. Sim, ele tem nome próprio, mas não nos quis dizer. Sim, ele tem idade, talvez para aí uns 26 ou 27 anos, imaginamos. Sim, ele deve ter uma actividade que lhe permite pôr pão e manteiga em cima da mesa, mas não nos quis fala dela, apenas disse que “era pobre, muito pobre”. E sim, tem um percurso, se é que se lhe pode chamar isso, para trás. Mas também não fala muito sobre ele. É alguém que acha que a música fala por ele.

Mas há coisas que soubemos da sua boca. Nasceu na Guiné-Bissau, de onde veio aos 12 anos. O pai, “Augusto Mariano, o melhor guitarrista da Guiné-Bissau”, afirma, “tocava com o Justino Delgado, um dos melhores artistas do país”, por isso a música sempre fez parte da sua vida. “Ainda por cima”, diz, pertence à etnia dos balanta, “que gostam muito” de cantar. “É a primeira coisa que fazemos ao acordar”, acrescenta.

Nunca teve aprendizagem formal de nenhum instrumento, mas afirma que se lhe derem para a mão “uma guitarra, um piano ou uma bateria” tocará todos esses instrumentos com desenvoltura de forma intuitiva. “Não sei como é que isso acontece, mas é verdade. Desde os oito anos que é assim.”

Na sua visão a música que a geração do pai fazia era mais “real”, pela relação física com o instrumento e porque existia uma aprendizagem mais exigente. Hoje é “como se fosse ficcionada”, no sentido em que o aleatório faz parte do processo. “Quando não se sabe tocar algumas coisas inventa-se!”, afirma ele por entre sorrisos. “Perdem-se umas coisas, ganha-se outras”, reflecte, argumentando que não gosta de hierarquizar os géneros de música, que acha todos válidos.

“Se alguém ouvir a minha música e a dançar ou ficar feliz, para mim isso basta. Faço o que sinto, não me interessam os rótulos. Antes de alguém chamar trap a esse tipo de música, já eu achava que fazia trap, mas não lhe dava esse nome. Na minha música não há mais ou menos, existe apenas o meio, a harmonia, um certo equilíbrio, pelo menos para mim.”

Quando fala sobre o bairro onde vive – Santo António dos Cavaleiros – os seus olhos ficam mais brilhantes. Discorre sobre o filho, a quem diz querer “deixar boas recordações com a música”, e sobre os amigos – “pobres” como ele mas a quem oferece a sua música “como factor de esperança e até de meditação.” Às tantas lança de forma surpreendente: “Gostaria de ajudar as pessoas através da minha música, dar-lhes força. Gostava que a minha música entrasse no subconsciente, de alguma forma, e desse alento às pessoas.”

Em alguns temas do disco há apontamentos vocais, não chegam a ser canções, mas fica a ideia que poderiam resultar como tal. À sua volta todos o questionam porque não opta por cantar. “Dizem-me que, assim, poderia ser famoso”, ri-se, “mas eu não quero ser famoso! Quero ser normal. Só desejo ter uma vida normal. O meu pai foi famoso e foi o primeiro a dizer-me: filho, chamar a atenção, não é bom!”

Até agora a sua actividade tem sido realmente discreta, estando dispersa pela internet, assinada com vários pseudónimos (Qraqmaxter CiclOFF, Erre Mente). Curiosamente quem o pôs em contacto com a Príncipe, em 2011, foi um jornalista americano que tinha ouvido uns temas da sua autoria na internet e ficou curioso. Aproveitando uma estadia em Lisboa, acabou por chegar a Normal Nada, através do artista Márcio Matos, o autor das capas desenhadas à mão da Príncipe e membro da editora.

Agora lança um primeiro disco, mas deseja ir mais longe, tendo muitas ideias que quer desenvolver. Não espanta que assim seja. Cada um dos temas de Transmutação Cerebral aponta para pistas muito diversas, do ruído digital mais iconoclasta à melodia mais envolvente. Aurabi desenvolve-se por entre efeitos dub e ritmos dancehall em cenário cósmico, enquanto as duas partes de Kakarak 1&2 disparam na direcção de uma rave alucinada com um ritmo mecânico irresistível e Nubai (wo lo lol) provoca sensações paradoxais, com uma voz intima e dolente a dizer-nos “tou de moca”, enquanto à sua volta o mundo gira em grande corrupio. E no final há Tarraxinha da calopsita, ritmo tranquilo e meloso, cenário tropical hiper-realista, impossível não balancear.

Sim, Normal Nada, é um poeta. Um poeta assumidamente esquivo num mundo dominado por burocratas insonsos, autor de uma música que vai muito além da realidade sem alternativas com que nos querem brindar. Haja esperança.

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