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Por Vitor Belanciano

A aventura editorial portuguesa Príncipe Discos continua com o rumo certo, como se pode depreender do facto de alguns dos seus lançamentos de 2017 (com destaque para o álbum Nídia é Má, Nídia é Fudida, de Nídia) constarem em várias listas dos melhores do ano para diversas publicações de todo o mundo.

Um dos lançamentos mais significativos da editora ocorreu precisamente no culminar do ano que terminou. Falamos do duplo EP de doze temas de DJ Lycox, um dos membros do colectivo Tia Maria Produções, que viram o disco Tá Tipo Já Não Vamos Morrer, ser lançado pela mesma editora em 2014. Lycox, de apenas 19 anos, nasceu em Portugal e viveu em Mira Sintra até ao início da adolescência, acabando por se mudar com a família para um dos territórios suburbanos de Paris, onde ainda reside.

Como outros parceiros da mesma aventura editorial o seu léxico é quase sempre instrumental, dançante e inspirado em linguagens como o kuduro, o afro-house ou o tarraxo, que concilia com elementos tropicalistas mais globais. Ao contrário de outros músicos-produtores da mesma editora, pelo menos neste disco, não faz do desvario e da apoteose rítmica a sua marca, optando quase sempre por desenvolver elementos melódicos e propor alguma respiração espacial, apesar da base rítmica ser decisiva.

É um disco mais de sonhos do que de pesadelos, apesar dos ambientes negros e neuróticos e da dinâmica quase tecno de La java, Nichako ou de Quarteto fantástico. No entanto, quando se ouve Solteiro, Virgin Island, Sky ou o balanço quase house de Domingo abençoado, o que vem ao de cima é o equilíbrio do design sonoro global, com ritmos mais desacelerados e a criação de ambientes mais sensíveis.

É verdade que na maior parte dos lançamentos da editora (Marfox, DJ Firmeza, Nigga Fox, Normal Nada, Black Sea Não Maya ou Nídia) se vislumbra suficiente maleabilidade para propostas onde a adrenalina coabita com espaços mais tranquilos, mas talvez nenhum até agora o tivesse conseguido com a mesma simplicidade e naturalidade que Lycox.

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Words by Andy Battaglia

Nídia, Nídia é Má, Nídia é Fudida (Principe)
This one comes from the antic and animated stable of DJs and producers behind Principe, a fantastic label devoted to dance-music sounds from the club scene in Lisbon, Portugal. Nídia produced one of the better tracks on the latest album by Fever Ray, and her own full-length offering abounds in sounds that go deep and spacey, with a propulsion that rumbles and shakes.

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Por João Morais

Numa altura em que as contas do título de disco do ano cá do burgo já pareciam mais que feitas e decididas (por estes lados, o caneco ia para o enorme lançamento homónimo de Luís Severo), DJ Lycox decidiu trocar as voltas a toda a gente e lançar um fulgurante LP de estreia que, no mínimo, relança o debate e obriga todos (os que têm estado atentos, pelo menos) a repensar as suas preciosas listas de 2017. Isto tudo com dez temas que não só honram o poderoso legado da Príncipe e de todos os grandes nomes do kuduro progressivo nacional a ela associados, mas também fazem muito pela demarcação duma identidade sónica muito própria.

E essa é uma intenção que se sente logo nas primeiras notas sintetizadas de “Weekend”, tema que abre este Sonhos & Pesadelos e que de imediato trata de nos transportar para um carrossel de teclas, guitarras e percussão onde o abanar de anca e o bater de pé são uma constante. Desengane-se, porém, que se sentir tentado a, a priori, remeter Lycox (nom de guerre de Ivan Martins) para uma única caixa de música dançável; ao longo do disco, para além das inescapáveis faixas criadas com o tarraxo nas Noites Príncipe em mente (“Galinha”, “Nichako” ou “La Java”), encontramos também incursões por terrenos mais próximos do house (“Domingo Abençoado” ou “Sky”) ou mesmo temas que, apesar do omnipresente foco na pista de dança, não têm pejo de mostrar um lado mais contemplativo (“Parabéns Moh Baba” ou “Solteiro”).

Sonhos & Pesadelos não é, portanto, um disco com uma só velocidade, conseguindo intervalar momentos de ritmo desenfreado (cujo expoente máximo será “Quarteto Fantástico”) com espaços para, aqui e ali, respirarmos fundo e olharmos para o céu (ou, se tivermos sorte, o tecto do Musicbox). Contudo, nunca tira completamente o pé do pedal, mantendo uma tensão constante que é fruto não só da curta duração das faixas (à excepção do último tema, “Solteiro”, nenhuma ultrapassa a marca dos quatro minutos) mas também dum talento único para manipular, controlar e moldar o ritmo, quase como se de barro ou plasticina se tratasse.

Talento esse que é apenas mais um na “caixa de ferramentas” de Lycox, onde figuram também o ouvido extremamente apurado para as melodias menos óbvias e o jeito para combinar sons e texturas improváveis com resultados bem mais que satisfatórios. Não sendo o membro mais experimental da label (esse título talvez sirva melhor ao pioneiro Marfox ou à incrível Nídia) ou o mais exímio a montar autênticas armas de destruição maciça das pistas de dança (esse crédito vai para Nigga Fox), o jovem produtor tem mais que tempo para crescer e se assumir como um dos nomes maiores da Príncipe. E ainda que não seja absolutamente perfeito (pecando sobretudo por um tamanho reduzido que só serve para nos deixar a salivar por mais), este Sonhos & Pesadelos é mais do que suficiente para nos conquistar os ouvidos, os pés e o coração.

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Words by Gary Suarez

The emergence of Lisbon’s Afro-Portuguese kuduro sound denotes the vast potential of electronic music to adapt and thrive outside of the more conventional urban centers for dance such as Berlin or London. While the Principe Discos imprint didn’t have its most prolific year, it held its own in 2017 in representing the scene. A name no doubt recognized by those familiar with the groundbreaking Cargaa series, DJ Lycox at last presents a full-length, one unencumbered by expectations. Via the deep house grooves of “Domingo Abençoado” and the trancey leads of “Sky,” he gives the vibrant subgenre a rejuvenating jolt throughout Sonhos & Pesadelos. The anticipated polyrhythmic complexities of this music persist even as the implementations fluctuate in often wild ways. The balearic finale “Solteiro” peaks with a pristine balance of elements, making for a style somewhere just beyond the reach of tropical house.

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Words by Philip Sherburne

Not only did the 20-year-old producer Nídia have a hand in “IDK About You,” one of the most electrifying songs on Fever Ray’s Plunge; the Portuguese-born, Bordeaux-based electronic musician helped push the Afro-Lusophone sound of batida forward with a debut album brimming with syncopated rhythms and unusually tactile percussive tones. Nídia É Má, Nídia É Fudida—a title that loosely translates as Nídia Is a Fucking Badass—confirms that she’s not riding anybody’s coattails.

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Words by April Clare Welsh

Since its inception five years ago, Lisbon’s Príncipe has gone from strength to strength. Now a contemporary club powerhouse in its own right, Príncipe’s commitment to championing the ideas, identities, sounds and beats of the Portuguese capital and its Luso-African diaspora doesn’t detract from the label’s innovating power, or make for any less variety, instead acting like sonic glue that binds hard and fast.

This year the killer releases have come thick and fast: Príncipe grande dame Nídia’s Nídia é Má, Nídia é Fudida LP was among our favorites of the year; DJ K30, DJ NinOo and Puto Andersons’s Firma do Txiga took tarraxinha to new places and newcomer DJ Lycox impressed us with his hypnotic debut album Sonhos & Pesadelos. What’s more, the beautiful hand-painted artwork from Príncipe’s in-house designer Márcio Matos continues to go above and beyond what’s expected from any label in 2017.

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